Calendário do futebol brasileiro: os estaduais são os vilões.

O calendário do futebol brasileiro é tema constante de discussões.  Sua adaptação ao calendário praticado na Europa é com certeza o tema de maior debate. Contudo, desconsiderando a validade dessa adaptação ou não, essa simples mudança não resolveria os problemas do nosso calendário. Digo isso, justamente por ter feito um rápido e simples exercício de comparação. Peguei como ponto de partida a Inter de Milão, atual campeã européia, campeã italiana e campeã da Copa da Italia. Enfim, o time que venceu tudo que disputou na Europa na temporada 2009/2010. Entre as 3 competições vencidas, mais a Supercopa da Italia (perderam pra Lazio) que é sempre disputada em partida única, a Inter de Milão realizou um total de 57 partidas. Dessas 57 partidas, a equipe tinha certeza de que jogaria as 38 partidas do Campeonato Italiano (já que é disputado em turno e returno) e as 6 primeiras da fase de grupos da Champions League. As demais partidas jogadas foram resultado do sucesso que a equipe foi obtendo na Champions League (mais 7, totalizando 13) e na Copa da Italia (5 partidas), passando de fases, até chegar as partidas finais. Notem bem, 57 partidas para quem chegou ao máximo de tudo que poderia chegar.

Para efeito de confronto com o futebol brasileiro, peguemos o Internacional, que assim como o xará italiano, também venceu a sua competição continental, e, portanto, jogou o máximo de partidas possíveis. Para se tornar campeão da Libertadores 2010, o Inter teve que disputar um total de 14 partidas. Assim como na Italia, o campeonato brasileiro também é disputado em pontos corridos e por 20 clubes. Deste modo o Inter e cada uma das outras 19 equipes, ao encerramento do campeonato terá jogado 38 partidas.

Matemática simples: 14 + 38 = 52. Como os clubes brasileiros participantes da Libertadores não disputam a Copa do Brasil – e essa discrepância daria um outro longo post – o total de partidas em uma temporada pareceria bem razoável.

Exato, pareceria… pois a realidade brasileira é diferente da dos demais países. No Brasil temos os campeonatos estaduais. Durante o Gauchão 2010, o Inter disputou 22 partidas. Poderia ter sido 24, tivesse chego a final do 1º turno. De qualquer modo, a conta muda. As 52 razoáveis partidas se transformam em 76. Some-se ainda os 2 jogos que o Inter disputará pelo mundial de Clubes, chegaremos ao incrível número de 78 jogos em um ano.

Tinha o costume de criticar técnicos e jogadores que reclamavam do número excessivo de jogos, mas após fazer esta rápida análise lhes dou total razão.

Mas então, qual seria a solução? Acabar com os estaduais, seria uma solução muito simplista. Substituí-los por copas regionais, possivelmente seria trocar seis por meia dúzia. Somente é possível dizer que temos hoje no Brasil em torno de 12 clubes grandes em termos de status, títulos e torcida graças aos campeonatos estaduais. São esses campeonatos que dão a clubes tradicionais a oportunidade de sagrarem-se campeões com certa periodicidade, sustentando assim a paixão de seus torcedores. Em via de regra, clubes grandes são feitos de títulos. Mesmo que até mesmo os torcedores não se deem conta disso muitas vezes.

Dito tudo isso, por mais maléficos que sejam hoje na elaboração de um calendário minimamente racional, os estaduais são um mal necessário. Talvez sua simples extinção poderia ser a chave para solucionar os problemas que temos com o calendário. Porém, no longo prazo, os inevitáveis jejuns de títulos que algumas equipes tradicionais poderiam sofrer, influenciaria certamente no equilíbrio que temos hoje, e que certamente é um dos pontos fortes do Campeonato Brasileiro. Sua imprevisibilidade, inclusive, é um fato muito mal aproveitado pelos dirigentes em matéria de marketing. Os estaduais devem ser readequados. Os grandes clubes deveriam jogar somente as fases finais. Talvez até em jogos eliminatórios. Mas enquanto continuarem sendo priorizados no calendário, pelos mais diversos motivos, continuarão sendo os grandes vilões do futebol brasileiro.

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Sobre Mauro Bellenzier

Um apaixonado por esportes, em especial pelo futebol. Interessado por todos aspectos externos ao campo de jogo! Atualmente residindo em Treviso, na Italia, Mauro Bellenzier é formado em Administração de Empresas pela Universidade de Caxias do Sul. Recentemente concluiu um MBA em Estratégias de Negócios Esportivos pela Universidade Ca' Foscari de Veneza. Sempre atento ao que acontece no cenário esportivo, acredita que a profissionalização da Administração Esportiva é um caminho inevitável para clubes e federações, mas mais do que isso, é um princípio básico para que possam desempenhar um papel de maior destaque na transformação de nossa sociedade.
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